O Brasil tem um sistema esportivo excessivamente centralizado.
Uma perda de um potencial gigantesco das universidades estaduais e federais e o rugby é um dos maiores exemplos desse erro estratégico.
Enquanto em países como os Estados Unidos o esporte universitário funciona como um verdadeiro ecossistema de formação, com centros de treinamento de alto nível, recuperação, fisioterapia, academias e a chance de evoluir atleticamente ao mesmo tempo em que se conquista um diploma, no Brasil a estrutura oficial do rugby permanece concentrada em poucos clubes e federações, majoritariamente no eixo Sul-Sudeste.
Nossas entidades nacionais e regionais e o modelo centralizado não aproveitam de forma sistemática a capilaridade, a infraestrutura e o capital humano das dezenas de universidades federais e estaduais espalhadas pelo país.
Resultado
Perdemos potenciais atletas em todos os níveis, da base ao alto rendimento e também pesquisadores, técnicos, gestores e formadores que poderiam transformar a modalidade. Muitas universidades públicas já possuem ginásios, campos, espaços de recuperação e, em alguns casos, legados de eventos como os Jogos Panamericanos Olímpicos, o campo de rugby da UFRJ era um exemplo claro de infraestrutura ociosa ou subutilizada que se perdeu.
Outras, como UnB, UFSC, UFLA e várias no interior, já tiveram ou têm núcleos ativos de rugby, mas sem integração estruturada com o sistema oficial, esses esforços ficam isolados, precários e sem continuidade.
O rugby brasileiro poderia crescer e se desenvolver, sim, com presença em todos os estados, aumento de praticantes e times universitários espalhados (USP, UNIP, UFRJ, UERJ, UFABC e tantos outros), mas esse crescimento é limitado precisamente porque a modalidade não é tratada como prioridade de extensão universitária, pesquisa e formação de longo prazo. Não há bolsas-atleta universitárias robustas e coordenadas em escala nacional para o rugby, não há campeonatos interuniversitários nacionais, apenas em São Paulo, fortes e permanentes ligados ao caminho do alto rendimento, e a pesquisa científica sobre performance, prevenção de lesões, gestão e desenvolvimento da modalidade no contexto brasileiro permanece marginal.
Um sistema descentralizado, que tratasse as universidades públicas como parceiras estratégicas (e não como meros “clubes amadores” ou espaços ocasionais), poderia:
- Ampliar a base de praticantes em regiões onde o rugby ainda é incipiente.
- Formar atletas com educação superior, gerando carreiras mais sustentáveis.
- Produzir conhecimento científico aplicado (pesquisadores de rugby em biomecânica, preparação física, psicologia do esporte, políticas públicas etc.).
- Usar a infraestrutura já existente em vez de depender exclusivamente de investimentos concentrados.
- Criar um “pipeline” contínuo da universidade para as seleções e clubes.
Enquanto o Brasil insistir em um modelo centralizado que olha quase exclusivamente para clubes tradicionais e seleções, continuaremos perdendo talentos, desperdiçando espaços públicos e retardando o desenvolvimento real do rugby em todos os níveis.
As universidades estaduais e federais não são “detalhe” são a maior rede de formação humana e infraestrutura esportiva que o país possui. Ignorá-las é um luxo que o rugby brasileiro não pode mais se permitir.
O caminho existe. Falta vontade política, visão estratégica e integração real entre Confederação, federações, universidades e poder público.