Editorial - Rugby Fora do Eixo

Política de Estado, não de governo: o rugby brasileiro não pode recomeçar a cada eleição.

No domingo, 4 de outubro, o Brasil escolhe presidente. Se necessário, volta às urnas no dia 25. Para o rugby, especialmente o rugby que nasce nos clubes fora do eixo Rio–São Paulo, a pergunta que importa não é o nome na urna. É se o país vai tratar o esporte como política de Estado: contínua, previsível e capaz de sobreviver à troca de governo e, o que é menos comentado, à manutenção do mesmo governo quando os projetos mudam de prioridade, de ministro ou de planilha.

Sem essa continuidade, clubes não se reconstroem. Sem clubes fortes, não há seleção sustentável. Sem base sustentável, o Brasil não “ganha o mundo”: permanece no meio da tabela mundial, longe da Copa do Mundo de XV e ainda dependente de ciclos olímpicos intermitentes no Sevens.

O rugby começa no gramado que some

O Rugby Fora do Eixo existe para lembrar o óbvio que a vitrine nacional às vezes esquece: o esporte começa no clube da cidade, no campo cedido, no treinador que acumula função, no juvenil que viaja de ônibus. São cerca de 70 mil atletas e cerca de 350 clubes, com concentração ainda forte no Sudeste e no Sul, muitos ativos e outros inativos muitas vezes

O crescimento é real. A sustentabilidade, não.

O caso de Araraquara é ilustrativo. Um time perde o campo porque a cidade prioriza outro projeto, neste caso, um CT de futebol feminino com investimento pesado. Há apoio pontual da fundação municipal, academia, fisioterapia, treinador. Ainda assim, o espaço de prática do rugby acaba. Não é má-fé isolada: é o padrão de um país em que o campo do rugby quase sempre é provisório. Em São Paulo, até a tentativa de formalizar um espaço em praça vira disputa de uso. Em Curitiba, a inauguração de um campo público específico já é notícia nacional, o que diz tudo sobre a escassez.

Enquanto isso, o Diagnóstico de Clubes da Brasil Rugby mostra o que os dirigentes já sentem: gestão, estrutura física, base, recursos humanos e captação andam em ritmos diferentes.

Competir no Super 8, 10, 12 ou 16 não basta. Clube forte é clube que treina toda semana no mesmo lugar, forma categorias, paga (ou pelo menos não endivida) quem trabalha e não desmonta o projeto a cada gestão municipal.

O dinheiro existe. O equilíbrio, não

Desde a indicação olímpica do Sevens, o rugby passou a acessar com mais regularidade o financiamento público. Os números importam. Entre 2005 e 2024, o Bolsa-Atleta destinou cerca de R$ 40,2 milhões a atletas da modalidade. A CBRu recebeu cerca de R$ 34,4 milhões da Lei Agnelo-Piva entre 2010 e 2023. A Lei de Incentivo ao Esporte transferiu cerca de R$ 50,2 milhões para 53 projetos no recorte estudado até 2023 a maior parte para alto rendimento (cerca de 84%), contra 12% educacional e 2% de participação. (cev.org.br)

Esse desenho explica o paradoxo brasileiro: há mais recurso do que há dez anos e, ainda assim, o clube médio continua improvisando. O alto rendimento captura o que é mais fácil de prestar contas e de mostrar em ciclo olímpico. A base onde se reconstrói o esporte fica com o resto.

Em 2025, a Lei Complementar 222 tornou permanente o regime de incentivo fiscal ao esporte, revogando o caráter provisório da antiga LIE. Pessoas físicas seguem podendo destinar até 7% do IR; empresas terão alíquota maior a partir de 2028. Foi um avanço institucional raro: o Congresso aprovou por unanimidade e o mecanismo deixou de depender de prorrogação política a cada crise fiscal. Isso é exatamente o tipo de decisão que o rugby precisa multiplicar, não só na captação de IR, mas na infraestrutura, no convênio plurianual com municípios e no financiamento da formação. (www12.senado.leg.br)

A LIE permanente não resolve sozinha o clube de interior que não tem equipe para escrever projeto, captar e prestar contas. Concentração de captação em poucos proponentes é o outro lado da mesma moeda. Política de Estado, aqui, significa capacitação de gestão nos clubes “fora

do eixo”, editais que privilegiem formação e campo, e regras que não mudem no meio do ciclo.

Eleição não pode ser reset do esporte

Governos mudam. Prioridades mudam. Ministérios são recriados, fundidos, esvaziados. No futebol, o volume de dinheiro e de pressão política garante alguma continuidade mesmo no caos.

No rugby, um recuo de dois anos desfaz uma geração. Por isso o argumento não é “vote neste ou naquele”. É exigir, de qualquer ocupante do Palácio, o que o rugby já deveria ter como pacto republicano:

Infraestrutura como direito de prática, não como favor municipal. Campos públicos ou parcerias estáveis (escolas, SESI, universidades federais, parques) com contrato de uso de longo prazo.

Perder o gramado no meio da temporada é política de abandono.

Financiamento plurianual da base, não só do ciclo da seleção. Vem Pro Rugby, Nina e equivalentes precisam de horizonte de quatro a oito anos, com meta de clubes atendidos fora do eixo e de retenção de atletas dos 14 aos 18 anos.

Equilíbrio entre rendimento, educação e participação. O estudo do financiamento público já denunciou o descompasso. Sem correção, o Brasil forma pontas de lança sem o iceberg da pirâmide.

Universidades e redes estaduais como política estruturante. O Sevens olímpico cabe no calendário universitário. Federações isoladas não substituem campus, bolsa de permanência e calendário regular.

Profissionalização da gestão do clube. O repasse recente de recursos de loterias ao Comitê Brasileiro de Clubes, com foco em formação de gestores, aponta o caminho certo: o gargalo não é só dinheiro, é capacidade de executar. (www12.senado.leg.br)


Mesmo a manutenção do mesmo governo não garante nada se o esporte continuar refém do orçamento anual, do humor do ministro e da disputa com modalidades de maior mídia.

Política de Estado é a que o próximo governo herda sem desmontar e que o governo atual não trata como campanha.

Ganhar o mundo começa no clube que não fecha

No ranking mundial masculino, o Brasil oscila na casa da 30ª posição, longe de Argentina, Uruguai e até de rivais regionais que apostaram mais cedo em estrutura de clubes.

“Ganhar o mundo” não é slogan de vestiário.

É ranking, classificação para Copa, consistência no Circuito Mundial de Sevens e, sobretudo, densidade: dezenas de clubes capazes de produzir jogador, não dois ou três núcleos que carregam a seleção.

Portugal cresceu com clubes e universidade. A Argentina profissionalizou o método sem abandonar o clubismo. O Brasil tem LIE, Bolsa-Atleta, COB, World Rugby e projetos sociais de qualidade.

Falta o que nenhuma confederação resolve sozinha: o Estado brasileiro decidir que o rugby e os esportes de construção lenta não serão resetados a cada quatro anos.

No dia 4 de outubro, o eleitor fará a escolha que lhe cabe. Ao rugby cabe outra, permanente: cobrar de todos os lados um compromisso escrito, mensurável e de longo prazo com a reconstrução dos clubes. Campo que não desaparece. Projeto que não morre na posse. Base que não é residual do alto rendimento.

Só assim o rugby brasileiro deixa de viver de milagre e passa a viver de política. E só assim um país do tamanho deste pode, de fato, olhar para o mundo sem pedir desculpas pelo próprio gramado.


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