O Pacaembu acordou outra vez para aplaudir o rugby e nossa verdadeira seleção brasileira.
Tivemos Haka, hino, molecada e a velha guarda do rugby no Brasil.
O Pacaembu acordou outra vez.
Não o Pacaembu dos cartões-postais, não o Pacaembu dos placares mil vezes repetidos. O Pacaembu de agora, Arena Mercado Livre, se quiserem o nome novo acordou com um estrondo antigo, um estrondo que não vem da bola redonda e sim da oval, dessa pelota teimosa que o brasileiro ainda trata como parente pobre e que, no entanto, ontem, fez da arquibancada um altar.
Havia famílias inteiras. Havia gente que veio de fora da cidade, de ônibus, de van, de madrugada, como quem vai a um casamento ou a um velório e, no fundo, o rugby são as duas coisas: festa e rito.
Havia o convidado que não sabia o que era rugby e saiu sabendo o que é um povo. Havia a molecada boa, essa molecada que corre, que se atira, que ri com a boca suja de terra e ainda acha que esporte é brinquedo.
Para alguns, era a última vez. Para outros, a primeira.
Entre a última e a primeira cabe a vida inteira. Eu vi caras que não via há anos. Vi moleques que cresceram e outros que envelheceram como a gente envelhece: de repente, sem pedir licença.
O tempo, no rugby, não disfarça. O tempo entra no scrum, entra no tackle, entra no abraço depois da falta. O tempo aparece no joelho que já não dobra como dantes e no olho do menino que ainda não aprendeu a ter medo.
E então veio o Haka.
Não se descreve o Haka. Descrevê-lo é diminuí-lo. Os homens da Nova Zelândia esses All Blacks Classics, lendas que já foram deuses e agora são memória em movimento, plantaram-se no gramado e fizeram da garganta um tambor. O Pacaembu inteiro emudeceu. Até o sujeito que tinha vindo “só olhar” ficou de pé, sem saber por quê. Porque o Haka não pede compreensão. O Haka pede presença. É um grito contra o esquecimento. É a afirmação brutal de que um povo, quando se junta, ainda pode assustar o mundo.
O rugby no Brasil não tem a multidão fácil. Não tem o hábito. Não tem a herança das gerações que já nasceram xingando juiz.
Tem outra coisa, mais rara: a paixão voluntária. Ninguém nasce torcedor de rugby por inércia. Quem está ali escolheu estar. Quem está ali pagou o preço da estranheza. E por isso a arquibancada, mesmo menor do que a do futebol, era maior. Era maior porque cada grito vinha de uma decisão. Cada criança com a camisa larga vinha de um pai, de uma mãe, de um tio que um dia disse: “Vem. Isso aqui também é nosso.”
Amigos, a mais sórdida pelada e o rugby, visto de longe, parece sórdido: corpo contra corpo, lama, sopro, ombro, queda é de uma complexidade shakespeariana. Num tackle mal ou bem feito há destino. Num passe atrasado há caráter. Num try há redenção. O brasileiro que ainda olha o rugby de lado, com aquela desconfiança de quem só respeita o que já é famoso, perdeu o essencial: o esporte não pede permissão para ser belo.
Vi gente se emocionar sem saber o placar. Vi o convidado perguntar as regras e, dois minutos depois, já gritar. Vi o velho apontar o campo para o neto como quem aponta uma estrela. Vi o menino que vai ser jogador e o homem que já não será e os dois, no mesmo instante, tinham a mesma cara: a cara de quem ainda acredita que o corpo pode dizer o que a boca não alcança.
Que o rugby brasileiro não peça desculpas. Que não se encolha. Que não faça o papel do parente tímido na festa do futebol. Ontem, no Pacaembu, a molecada boa mostrou o caminho: jogar, se divertir, cair, levantar, abraçar o adversário e voltar para casa sujo, feliz e maior.
O Haka acabou. O jogo passou. As famílias se dispersaram. Mas algo ficou plantado no estádio e no peito de quem estava lá. Uma certeza simples, quase infantil, e por isso invencível:
o Brasil também cabe nesse grito.
E quem viu, amigos, já não é o mesmo