Rugby Fora do Eixo
Na minha visão, o maior erro dos últimos anos foi acreditar que o crescimento viria de cima para baixo. Houve uma época em que o Brasil tinha dinheiro da World Rugby, patrocinadores importantes, transmissões de TV, seleções competitivas e até atletas contratados. Parecia que o esporte estava decolando.
Mas a base não cresceu na mesma velocidade.
Quando o dinheiro diminuiu, percebeu-se que muitos clubes continuavam dependentes de meia dúzia de voluntários. Isso mostra que o crescimento não estava consolidado.
Uma coisa que sempre me chama atenção é que o rugby brasileiro fala muito em "desenvolvimento", mas mede sucesso por resultados de seleção. Eu faria o contrário.
Se eu fosse alguém da CBRu hoje, minhas metas não seriam ganhar um Sul-Americano ou outro torneio. Seriam coisas como:
- dobrar o número de árbitros ativos;
- aumentar em 50% o número de treinadores certificados;
- fazer cada clube abrir uma categoria juvenil e outras bases;
- reduzir a evasão de atletas entre 16 e 22 anos;
- fazer com que os clubes tenham receita própria e não dependam apenas da anuidade dos jogadores.
Se essas metas fossem atingidas, os resultados internacionais viriam naturalmente “alguns” anos depois.
Outra coisa que acho que o rugby ainda não aprendeu é vender seu produto.
Nós sabemos que o rugby muda vidas. Você provavelmente conhece dezenas de histórias de pessoas que encontraram família, disciplina, profissão ou propósito dentro do esporte.
Mas quem está fora não sabe disso.
Quando um pai coloca o filho no futebol, ele entende imediatamente por quê.
Quando coloca na natação, também.
No rugby, muitas vezes a única mensagem que chega"é um esporte de contato".
Isso é vender muito pouco do que realmente existe.
Também acho que existe um certo elitismo histórico que ainda afasta pessoas. Não estou dizendo que o rugby seja elitista hoje. Acho que melhorou muito. Mas a imagem continua sendo. Enquanto o esporte não for percebido como algo para qualquer criança brasileira, continuará limitado.
E existe um ponto delicado, que talvez vocês concordem ou talvez discordem.
O rugby brasileiro às vezes gasta energia demais discutindo política interna.
- Clubes contra federações.
- Federações contra CBRu.
- XV contra Sevens.
- Capital contra interior, Norte contra o Sul.
- Universitário contra clube tradicional.
Enquanto isso, outros esportes estão simplesmente colocando mais gente para praticar.
No fim, quem perde é o jogador.
Se eu pudesse resumir minha visão em uma frase, seria esta:
“O maior patrimônio do rugby brasileiro não são os Tupis nem as Yaras e muito menos os Cobras. São os clubes que sobrevivem há 20, 30 ou 40 anos quase sempre graças ao trabalho voluntário.”
- É ali que está o conhecimento acumulado.
- É ali que está a cultura do rugby.
- É ali que está a formação.
- Se esses clubes desaparecerem, nenhuma seleção sustenta o esporte.
Para os que conhecem o meio, gostaria fazer uma pergunta de volta
Na sua opinião, qual foi o momento em que o rugby brasileiro começou a perder o rumo?
Foi depois do fim do ciclo olímpico? Da redução dos recursos da World Rugby? Das mudanças na gestão da CBRu? Ou vocês acham que o problema vem de muito antes?
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