Rugby Fora do Eixo
Se queremos saber se o trabalho executado no esporte é relevante, ele precisa ser mensurado de forma rigorosa, quantitativa e impiedosa. Trabalho invisível não existe: ou ele produz resultados mensuráveis ou é irrelevante.
- Na realidade, ninguém escapa da métrica: Em dieta, a balança não mente.
- No crescimento infantil, a estatura é objetiva.
- Na escola, provas e notas definem aprovação ou reprovação.
- No atletismo, o cronômetro expõe a evolução (ou estagnação).
- No basquete, cestas convertidas, assistências efetivas e eficiência de arremessos são implacáveis.
- No futebol, gols, vitórias, derrotas, posse de bola, passes completos e xG (expected goals) não permitem narrativa.
Então por que, no esporte amador e de base, especialmente no rugby, tantas entidades, federações, clubes e “lideranças” se recusam a aplicar o mesmo rigor contra si mesmas?
Avaliação Técnica Exigida
Uma universidade séria mede:
- Taxa de retenção e evasão (entrada × saída);
- Taxa de empregabilidade dos egressos em até 12 e 24 meses;
- Percentual de formados que atuam na área com destaque (publicações, cargos de liderança, prêmios, faturamento);
- Métricas de excelência comparativas (rankings, produção científica, empregadores que contratam).
No esporte, a avaliação tem de ser ainda mais dura porque o produto é desempenho competitivo e expansão sustentável.
Dentro das quatro linhas: resultados, ranking, eficiência tática, desenvolvimento individual (scouting metrics, workload, KPIs técnicos).
Fora das quatro linhas: Métricas mínimas obrigatórias no rugby (e em qualquer modalidade):
- Número absoluto e taxa de crescimento de praticantes (masculino e feminino, por faixa etária);
- Quantidade de clubes ativos em competições oficiais (não só filiados no papel);
- Taxa de retenção de atletas por temporada (evasão > 25% é sinal vermelho);
Existência e qualidade real de categorias de base (sub-14, sub-16, sub-18, sub-20) com calendário competitivo estruturado;
- Número de treinadores formados × número de treinadores ativos seguindo diretrizes técnicas unificadas;
- Percentual de clubes que efetivamente utilizam os profissionais formados nos cursos da entidade;
- Número de árbitros formados × número de árbitros escalados e avaliados tecnicamente por partida.
Métricas de penetração comunitária:
- escolas atendidas, projetos sociais com resultado auditável, crescimento geográfico real (não só mapa colorido).
Sem esses números, não há gestão, há voluntarismo, amadorismo disfarçado de paixão e, muitas vezes, apropriação de cargo sem prestação de contas.
Não adianta falar em “crescimento” sem dados. Não adianta falar em “formação” sem retenção e aplicação prática. Não adianta falar em “desenvolvimento” sem comparação ano a ano e benchmark com outras regiões ou federações. Sem manuais, cartilhas ou discursos bonitos.
Líderes que se acham acima de avaliação, os “apocalípticos intocáveis” que levantam a mão pedindo isenção de responsabilidade, são exatamente o problema. Quem não aceita ser mensurado com dureza não merece gerir recurso público, privado ou tempo de atletas.
O esporte não cresce com narrativa. Cresce com números cruéis, transparência brutal e cobrança sem piedade. Ou medimos de verdade, ou continuamos fingindo que o trabalho está sendo feito.
A escolha é clara. E o tempo, como no cronômetro, não perdoa.
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